Agora, um ano depois de seu sepultamento, graças à misteriosa ação da memória involuntária, ele descobre que ela está morta. (…) Mas deste gesto ele não extraiu meramente a realidade perdida de sua avó: é sua própria realidade perdida que ele recuperou, a realidade de seu eu perdido [escondido sob o véu de calmaria e comodismo promovidos pelo Hábito]. Como se a imagem do Tempo pudesse ser representada por uma série infinita de linhas paralelas, sua vida passa para outra linha e prossegue, sem qualquer solução de continuidade, a partir daquele momento remoto de seu passado quando sua avó se curvou sobre sua angústia. (…) Mas o reatamento de uma vida passada é envenenado por um cruel anacronismo: sua avó está morta. Pela primeira vez desde sua morte, desde os Champs-Elysées, ele a recupera viva e completa, como ela tantas vezes fora, em Compray, em Paris, em Balbec. Pela primeira vez desde sua morte, ele sabe que ela morreu, ele sabe quem está morta. Foi preciso recuperá-la viva e terna antes que ele pudesse concebê-la morta e para sempre incapaz de qualquer ternura. Esta contradição entre presença e irremediável solução é intolerável.
– Beckett sobre Proust [sobre ele mesmo também, né] de novo.